

Era uma frase que minha falecida mãe costumava repetir para nós desde o início da guerra civil libanesa, há mais de cinquenta anos. Para ela, não era apenas um conselho financeiro, mas a expressão de uma consciência precoce do perigo e da necessidade de se preparar para os dias difíceis. Ela também conhecera a tragédia da fome por meio dos relatos transmitidos por seu pai, cujos dois irmãos emigraram em busca de sustento e ficaram muito tempo sem dar notícias, enquanto ele permaneceu para cuidar dos pais…
Ao mesmo tempo, minha mãe era influenciada pelas ideias reformistas de Raymond Eddé e por seus receios diante das ambições expansionistas de Israel. Ela se lembrava especialmente de sua advertência, em 1969, contra a assinatura do Acordo do Cairo, por temer que ele pudesse oferecer a Israel um pretexto para ampliar sua ocupação do sul do Líbano, no contexto do que ele considerava suas ambições expansionistas históricas.
Recordo hoje esses episódios não para voltar às tragédias do passado, mas porque o Líbano atravessa mais uma vez um momento decisivo e porque algumas lições do passado não devem se perder.
A coisa mais importante que podemos fazer hoje é impedir que nossas profundas divergências se transformem em uma nova guerra entre libaneses. Devemos preservar nossa unidade e a paz civil, moderar nosso discurso político e midiático e rejeitar a incitação, as acusações de traição e o espírito de vingança, por mais profundas que sejam nossas diferenças…
Mas a unidade não é apenas um slogan. Ela precisa se traduzir em medidas concretas.
Em primeiro lugar, devemos declarar um estado de emergência social para proteger a população: garantir alimentos, medicamentos e abrigo aos deslocados, apoiar as famílias mais vulneráveis e coordenar os esforços entre o Estado, os municípios, as associações e o setor privado, para que o medo não se transforme em uma nova tragédia marcada pela fome e pela emigração…
Em segundo lugar, devemos preservar o que resta de nossa economia: apoiar as pequenas empresas, os agricultores e os produtores, proteger os empregos, manter escolas, universidades, hospitais e fábricas em funcionamento e incentivar os libaneses dentro e fora do país a manter vivo o ciclo econômico.
Em terceiro lugar, devemos evitar a maior perda de todas: a emigração dos próprios libaneses. O Líbano já pagou um preço muito alto no passado, quando as guerras, a fome e o colapso levaram um grande número de jovens, trabalhadores e intelectuais a emigrar. Até hoje, continuamos pagando o preço dessa hemorragia humana.
Por isso, hoje nossa «moeda branca» não é apenas dinheiro. É o ser humano libanês, sua unidade, seu trabalho, sua escola, sua terra, sua empresa, suas economias e sua confiança no futuro de seu país.
É aqui que começa a responsabilidade do Estado: estar presente, proteger seus cidadãos, reconquistar sua confiança e elaborar um plano claro de resiliência econômica e social, seguido da reconstrução e da recuperação.
No plano político, não há salvação para o Líbano fora do diálogo interno e de um acordo entre os libaneses sobre aquilo que possa proteger a soberania do Estado, a independência da decisão nacional e a segurança de todas as regiões, longe de qualquer lógica de dominação ou exclusão. Aquilo sobre o qual nós, libaneses, conseguirmos chegar a um acordo deve constituir a base de nossa força em qualquer negociação sobre o futuro do Líbano e de seu território.
Nossa história nos ensinou que o Líbano paga muitas vezes o preço de suas divisões. Nestes dias sombrios, talvez não possamos decidir tudo o que acontece ao nosso redor, mas podemos decidir como enfrentá-lo como libaneses.
E, se de fato precisamos «guardar nossa moeda branca para o nosso dia negro», preservemos hoje aquilo que vale mais do que o dinheiro: nossa unidade, nossa confiança no Líbano e nossa capacidade de reconstruí-lo.