


A guerra na Ucrânia continua a ser o centro de um amplo debate alimentado, entre outros fatores, por bombardeios quase diários que têm como alvo, de ambos os lados, pontos nevrálgicos e, mais especificamente, as capitais russa e ucraniana.
Para compreender melhor as diferentes dimensões deste antigo conflito, é necessário revisitar os prolegômenos e a gênese do que desembocou nesta guerra (fratricida?), expondo as motivações e as aspirações das diferentes partes envolvidas, nomeadamente o Ocidente (Estados Unidos e Europa, alargada a todos os países da OTAN, à exceção da Turquia), e recordando também os primórdios da ofensiva russa e os fracassos das tentativas de alcançar a paz, ou, pelo menos, de iniciar negociações, sabendo que as responsabilidades neste contexto são múltiplas.
Jean-Patrick Dayras, vice-almirante (2s)
Numa série de cinco artigos, o nosso colaborador Jean-Patrick Dayras, vice-almirante da Marinha francesa, expõe a sua visão e análise da questão.
Para compreender bem os meandros dos diversos aspectos da guerra na Ucrânia, algumas questões fundamentais deveriam ser levantadas desde o início. O que representam a Rússia e a Ucrânia para o Ocidente? Quais poderiam ser as consequências concretas de uma eventual vitória clara de um dos dois protagonistas? E, por consequência, quais seriam os efeitos para o Ocidente e o Oriente Médio?
Antes de abordar estes diferentes ângulos, uma apresentação dos prolegômenos e da gênese deste conflito constitui, sem dúvida, uma etapa obrigatória.
O gatilho do conflito foi, em certa medida, o movimento do Maidan, protagonizado pela juventude ucraniana, que interpretou a recusa do então presidente ucraniano Viktor Yanukovych em assinar o acordo de associação com a União Europeia, em novembro de 2013, como um abandono da direção que desejava para o país.
As principais motivações dessa juventude na época eram: a aspiração a um nível de vida mais elevado; a construção de um Estado de direito; a luta contra a corrupção; a liberdade de circulação e a possibilidade de viajar, estudar e trabalhar com mais facilidade na Europa; e a afirmação da identidade cultural e política.
Uma parte da juventude, sobretudo no oeste e no centro da Ucrânia, sentia-se culturalmente mais próxima da Europa do que da Rússia, ao contrário das regiões do leste.
O país estava, portanto, longe de ser sociologicamente homogêneo. O Maidan foi, nesse contexto, um movimento amplamente popular.
Os Estados Unidos apoiavam a oposição ucraniana, tanto politicamente quanto por meio do financiamento, durante anos, de programas de apoio à sociedade civil, aos meios de comunicação independentes e às instituições democráticas. Havia, em segundo plano, interesses geopolíticos evidentes.
Após a Geórgia e as independências bálticas, a Rússia havia deixado claro o seu leitmotiv: “até aqui”... A CIA, sempre muito ativa e frequentemente envolvida, apoiou ou provocou o Maidan? É possível, mas não é certo. A história dos Estados Unidos desde 1970 leva a crer que ela não foi alheia a isso. A Rússia apresenta o Maidan como um golpe de Estado apoiado pela CIA. Isso não constitui uma prova. Mas é possível, e até natural, pensar assim.
Os responsáveis políticos europeus e americanos expressaram o seu apoio aos manifestantes e a uma aproximação com a Europa.
Por outro lado, os meios de comunicação ucranianos, as redes sociais, as universidades e associações estudantis, bem como as organizações da sociedade civil (algumas das quais beneficiavam de financiamentos ocidentais ou de fundações internacionais), desempenharam um papel não negligenciável nesse contexto. A Rússia, por seu lado, desenvolvia a sua influência nos planos econômicos, midiáticos e políticos para integrar a Ucrânia na União Econômica Eurasiática.
De mal a pior
Após o Maidan, as relações entre os dois países transformaram-se radicalmente. O governo Yanukovych caiu em fevereiro de 2014. Um referendo foi organizado na Crimeia em março de 2014, cujo resultado levou a Rússia a anexar a península. Essa anexação é denunciada como ilegal por um grande número de países-membros da ONU, ignorando voluntariamente a história da integração da Crimeia à Ucrânia.
Na primavera de 2014, separatistas pró-russos, apoiados pela Rússia com financiamento, armas e conselheiros, tomaram o controle de cidades nas regiões de Donetsk e Lugansk, no Donbass. A Ucrânia lançou uma operação para recuperar os territórios ocupados. A guerra em território ucraniano teve então início. Inicialmente, tratava-se de uma guerra civil!
Os acordos de Minsk (I e II)
O Acordo de Minsk I (com o objetivo de pôr fim à guerra no Donbass) foi assinado em 5 de setembro de 2014 por representantes da Ucrânia, da Rússia, da OSCE e dos separatistas. O cessar-fogo foi, no entanto, rapidamente violado, e os combates recomeçaram.
O Acordo de Minsk II foi assinado em 12 de fevereiro de 2015 por Petro Poroshenko, Vladimir Putin, Angela Merkel e François Hollande. Previa medidas militares e políticas, mas a sua aplicação foi alvo de profundos desacordos. Os combates de baixa intensidade prosseguiram entre 2015 e 2022.
O processo de Minsk manteve-se oficialmente como a base diplomática das negociações, mas nunca foi integralmente aplicado. Sobre esse acordo, a senhora Merkel e o presidente Hollande pronunciaram-se posteriormente. As suas declarações não lhes fizeram honra.
Na sequência do Maidan, a Ucrânia assinou um acordo de associação com a União Europeia. Empreendeu reformas nos domínios da justiça, da polícia e da luta contra a corrupção, com resultados considerados mistos. Reforçou progressivamente a sua cooperação com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, sem a ela aderir. O primeiro e, sobretudo, o último ponto acima mencionados são fundamentais e não podem ser ignorados quando se analisa a responsabilidade de cada parte neste triste conflito, que envolve dois países com inúmeros laços históricos entre si e com a Europa, razão pela qual não pode ser encarado como os demais conflitos que opõem países rivais há décadas.
A invasão e as reações ocidentais
Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, com o propósito declarado de garantir a segurança russa e proteger as populações russófonas das regiões orientais. Essa agressão é contrária ao direito internacional, tanto mais que a Rússia é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Porém, ao avançarem esse argumento, os Estados Unidos e os países europeus omitiram o reconhecimento das suas próprias responsabilidades, evidenciadas pelos seus diferentes comportamentos e pelas suas numerosas ações prejudiciais, nomeadamente no que respeita à legitimidade da mudança de poder em 2014. Essa questão continua a ser objeto de acensos debates políticos e históricos.
A não assunção dessas responsabilidades afigura-se como uma culpa, senão mesmo uma cumplicidade. Tudo parece ter sido premeditado e desejado. Ainda hoje, isso é ocultado pelos defensores da erradicação da Rússia; a expressão não é exagerada, e denunciá-lo hoje no Ocidente leva a ser acusado de ser pró-russo. Será que é desta forma que se podem proclamar os valores ocidentais? É assim que se leva povos esclarecidos a compreender os assuntos do mundo, em particular os europeus, e os seus desafios?
Sem demora, e sob a ação dos “Serviços” oficiais e dos grupos de influência contrários à Rússia, em particular os da União Europeia, as populações ocidentais tomaram partido pela Ucrânia. Vale a pena lembrar, a esse respeito, que, antes de 2022, vários meios de comunicação e sites de notícias realizaram entrevistas nas ruas que mostravam como muitas pessoas tinham dificuldade em localizar a Ucrânia no mapa. Existem pesquisas mais antigas sobre cultura geográfica que demonstraram que, em vários países ocidentais, uma parcela considerável da população tinha dificuldade em situar, num mapa, certos países da Europa Oriental, incluindo a Ucrânia.
Após a invasão russa, as sondagens científicas debruçaram-se sobre o apoio à Ucrânia, as sanções contra a Rússia, o fornecimento de armas, o acolhimento de refugiados e os receios ligados ao conflito. Porém, essas sondagens não abordaram a geografia, nem as causas da invasão. Mais um elemento de suspeição sobre a vontade dos dirigentes políticos ocidentais de querer “abater” a Rússia e ocultar quais eram as verdadeiras intenções iniciais, nomeadamente integrar a Ucrânia, a todo o custo, na Europa e, antes de mais, na OTAN.
Os Estados Unidos sabiam, ou deveriam ter sabido, que, para os russos, isso constituía um casus belli. Já após a independência dos países bálticos (1989-1991) e, posteriormente, com os acontecimentos na Geórgia que levaram ao reconhecimento, em 2008, da Ossétia do Sul e da Abcásia como Estados independentes pela Rússia, os russos tinham demonstrado a sua vontade de dispor de Estados-tampão que os protegessem do Ocidente. Será que os valores ocidentais, tantas vezes evocados e reafirmados, mas nunca devidamente explicados, assentam apenas num desejo de revanche? Para punir a Rússia, ex-URSS? Isso não constitui um projeto de futuro.
Muitos países europeus estiveram em guerra, combateram e lamentaram incontáveis mortos em vários campos de batalha. Por que razão conseguiram, ainda que com dificuldade, fazer as pazes? Seria o credo de Boris Johnson: “os russos devem ser erradicados”? Tudo indica que sim. Boris Johnson manifestou, nessa ocasião, um ódio em relação aos russos em geral, e não apenas a Putin.
No entanto, uma aproximação entre a Rússia e a Europa chegou a ser equacionada em dois momentos distintos: após o colapso da União Soviética, o presidente Ieltsin procurou desenvolver relações estreitas com os países ocidentais, e alguns dirigentes europeus e russos evocavam a possibilidade de uma integração mais aprofundada, a muito longo prazo; e, depois, no início dos anos 2000, sob Vladimir Putin, as relações com a UE eram relativamente construtivas e pautadas pela cooperação.
As negociações desse segundo período incidiam sobre uma parceria estratégica, mas não sobre a adesão à UE. De 1996 a 2022, a Rússia foi membro do Conselho da Europa, organização distinta da União Europeia, tendo sido excluída na sequência da invasão da Ucrânia. Por que razão, entre 1996 e 2020, não se tentou torná-la um Estado associado, à semelhança do que poderia ter acontecido com a Turquia e o Marrocos? Onde estaríamos hoje, sobretudo quando se vislumbra a rivalidade, já bem real, entre a China e o Ocidente?