
O Hezbollah arrasta o Líbano para a guerra


Poderia ter sido diferente?
Desde 1973, o Líbano se tornou o único front ativo de todas as guerras regionais. Poderia, desta vez, ter permanecido fora de um conflito existencial para uma de suas principais forças políticas, o Hezbollah, na medida em que o grupo faz parte integrante da estrutura dos Guardiões da Revolução iraniana, atualmente sob ataque israelense e americano em Teerã?
Não.
O Hezbollah ignorou deliberadamente os alertas internacionais transmitidos nos últimos dias pelo Estado libanês, segundo os quais sua entrada na guerra em curso entre o Irã e o eixo americano-israelense provocaria sua própria aniquilação e imporia um custo devastador ao Líbano. Como se quisesse impor uma humilhação pública ao presidente da República, Joseph Aoun, e ao gabinete de Nawaf Salam.
Na noite de 1º para 2 de março, o partido pró-iraniano lançou mísseis e drones contra posições do Exército israelense no norte de Israel, inclusive na região de Haifa, antes de anunciar oficialmente que se tratava de uma “resposta legítima” ao assassinato do wali el-faqih, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, em Teerã.
Com isso, o Hezbollah abriu mais uma vez as portas do inferno, agindo, como de costume, de forma unilateral, em função de sua lealdade direta aos Guardiões da Revolução. Israel aproveitou imediatamente o pretexto que aguardava para desencadear uma série de ataques particularmente violentos contra o sul do Líbano e a periferia sul de Beirute. Foram quinze bombardeios em poucos minutos, com explosões tão potentes quanto as que mataram Hassan Nasrallah e, depois, Hashem Safieddine, no fim de setembro de 2024.
Posteriormente, o Exército israelense anunciou ter atingido “com precisão diversas figuras eminentes e dirigentes” do partido, sem fornecer mais detalhes.
O primeiro-ministro Nawaf Salam divulgou um comunicado classificando os disparos de foguetes contra Israel como “irresponsáveis e suspeitos”, afirmando que “o Estado libanês não permitirá que o Líbano seja arrastado para novas aventuras” e que tomará “as medidas necessárias para prender os responsáveis e proteger os libaneses”.
Do lado israelense, o Exército informou que o chefe do Estado-Maior havia autorizado uma ofensiva contra o Hezbollah, acusando o grupo pró-iraniano de mergulhar o Líbano na guerra e ameaçando impor “um preço exorbitante a todo inimigo que ameace nossa segurança”. A mídia oficial de Israel também anunciou que a operação “continuaria por vários dias”, ordenando, durante a madrugada, a evacuação de habitantes de 53 vilarejos no sul do Líbano e no Vale do Bekaa.
Um colapso psíquico inevitável
Embora tenha rompido 48 horas de um raro e inesperado período de calma no Líbano, em um contexto no qual todo o Golfo, o Iraque e até Chipre já estão sendo arrastados para a espiral da guerra contra o Irã, a decisão do Hezbollah não surpreende.
Muitos apostavam em um mínimo de lucidez e pragmatismo por parte do partido, sobretudo após os bombardeios israelenses de 2024, que dizimaram toda a sua cúpula militar, incluindo seu líder, Nasrallah, e seu sucessor, Hashem Safieddine. Isso, porém, é desconhecer a natureza estrutural do Hezbollah.
Desde a derrota de 2024, as pressões americanas sobre o Estado libanês se intensificaram para que o grupo entregasse suas armas ao Estado e desmantelasse suas posições ao sul do rio Litani. Sua estrutura paramilitar é alvo constante de assassinatos seletivos por parte de Israel. Seus depósitos de armas e tentativas de reconstruir sua capacidade militar, com apoio e possível controle direto dos Pasdaran, vêm sendo monitorados com precisão e sistematicamente destruídos pela aviação israelense, especialmente na região de Baalbek, ao norte do Litani.
Há, além disso, um consenso político quase unânime no Líbano sobre a necessidade de restaurar o monopólio da violência legítima. Isso significa que, mais cedo ou mais tarde, o Hezbollah terá de abrir mão da base de sua superpotência e de sua hegemonia sobre a vida política libanesa nas últimas duas décadas: seu arsenal. Algo que o grupo se recusa a fazer, desafiando abertamente o poder executivo e, mais amplamente, o desejo da sociedade libanesa de viver em neutralidade frente aos conflitos regionais.
Mais ainda, com a morte de Khamenei e da alta cúpula dos Guardiões da Revolução nas últimas 48 horas, o Hezbollah perdeu, de forma abrupta, todos os seus referenciais existenciais. Não apenas políticos e militares. Sua própria doutrina foi atingida em cheio. Desde sua fundação, no início dos anos 1980, como instrumento da exportação da revolução islâmica ao Líbano, o grupo sempre se estruturou em torno dessa matriz ideológica. Ao matar Khamenei, os Estados Unidos e Israel eliminaram não apenas a referência política, militar e espiritual do Hezbollah, mas, aos olhos de seus seguidores, o próprio representante de Deus na Terra.
Em uma lógica de seita milenarista, teocrática e martirizante, isso só pode produzir uma ruptura total com a realidade, uma dissociação profunda e um colapso psíquico coletivo.
Em outras palavras, com o assassinato do wali el-faqih, toda perspectiva de transcendência foi destruída dentro do Hezbollah. Trata-se de um choque de natureza existencial, capaz de gerar um colapso psicológico completo.
Diante disso, a única reação possível para uma milícia encurralada, ainda que deseje algum realismo político, é permanecer fiel à sua missão, à sua doutrina e às suas crenças, mesmo que isso signifique um suicídio estratégico, no estilo de Massada. Ainda que implique a destruição total do Líbano e de sua população, começando, mais uma vez, pelo chamado “berço revolucionário” do partido: o sul do país, o Vale do Bekaa e a periferia sul de Beirute. E tudo indica que Israel não se limitará a essas regiões, como não o fez em 2024, quando bombardeou também Jbeil, o norte do país e a própria capital.
O Hezbollah acaba de arrastar o Líbano para a guerra por puro impulso autodestrutivo, sem qualquer ganho político viável, como um último gesto de bravata, um baroud d’honneur a serviço de uma direção iraniana que, como demonstrou repetidamente nas últimas duas décadas, pouco se importa com as vidas árabes sacrificadas em função de seus cálculos geopolíticos e interesses próprios.
Esse é o outro nome do absurdo, no mesmo registro de figuras como Jim Jones e David Koresh.
O Líbano não pode pagar o preço de um delírio eschatológico mortífero, de uma pulsão de morte gerada por uma queda psicopatológica de natureza quase gnóstica no vazio absoluto.
Uma coisa é certa: Israel aguardava, provavelmente com plena consciência do comportamento do adversário, exatamente esse gesto suicida para se posicionar como vítima e justificar uma intervenção militar premeditada e cuidadosamente preparada, possivelmente até uma invasão.
Mais uma vez, como em 2024, sob o pretexto de “defender Gaza”, o Hezbollah, agora para vingar Khamenei e a destruição em curso do império iraniano, ofereceu a Israel o pretexto perfeito. Um gesto simbólico que remete a Zópiro, o nobre persa que, segundo Heródoto, entregou traiçoeiramente “por dentro” as chaves da Babilônia a Dário I.